Polícia Civil apura denúncia de intolerância religiosa contra templo de umbanda em Lavras

A Polícia Civil de Lavras (MG) investiga um caso de intolerância religiosa contra um templo de umbanda localizado no bairro Vila Joaquim Salles. Segundo relatos, no dia 1º de agosto, um grupo de evangélicos teria feito ofensas em frente ao local, que estava vazio no momento.

Câmeras de segurança não registraram a imagem dos envolvidos, mas captaram áudios com frases como: “Nós não aceitamos, Senhor Jesus, nada em nome de Satanás aqui nesse bairro. Esses moradores estão recusando isso aqui”. Testemunhas afirmam que a voz seria de uma pastora.

O templo funciona há dois meses no imóvel. O sacerdote Bruno Macedo relatou que o grupo ainda pediu aos moradores que expulsassem os praticantes da religião.
“Qualquer cultura de matriz africana já sofre preconceito. Estávamos preparados para enfrentar o racismo religioso, mas não imaginávamos que aconteceria tão cedo”, afirmou.

Uma vizinha, que preferiu não se identificar, presenciou a ação e denunciou o caso. “Parar em frente ao terreiro para proferir ódio contra a religião não foi agradável. Por isso resolvi avisar o pai de santo”, contou.

O delegado Alexandre Rezende Vieira informou que já recebeu as imagens e trabalha para identificar os suspeitos e ouvi-los. O crime de intolerância religiosa pode resultar em pena de até cinco anos de prisão.

Crescimento de casos no Sul de Minas
Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania apontam que, entre janeiro e julho deste ano, os registros de crimes contra a liberdade religiosa na região aumentaram 182% em relação ao mesmo período de 2024.

Segundo Rafael Rodrigues de Castro, coordenador do Observatório da Diversidade Religiosa de Lavras, a instituição já mapeou mais de 300 templos de diferentes crenças no município. “O objetivo é acompanhar as ações do poder público e garantir que o Estado laico seja respeitado”, disse.

A advogada do templo, Elaine Carvalho, afirmou que, além do inquérito, será ajuizada uma ação por danos morais. “Pela exposição, sofrimento e incitação à hostilidade, vamos acionar a Justiça”, destacou.

Bruno Macedo reforçou que busca reparação em nome de toda a comunidade. “Nossa religião há anos sofre intolerância. Qualquer recurso obtido será revertido para a comunidade”, concluiu.