Entenda a investigação da “Abin paralela”, que levou ao indiciamento de Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Ramagem

A Polícia Federal (PF) concluiu nesta terça-feira (17) o inquérito que apura o uso político da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). A investigação aponta que a estrutura do órgão foi utilizada ilegalmente para realizar espionagem contra adversários políticos e produzir informações de interesse pessoal do então presidente e de sua família.

Entre os indiciados estão Jair Bolsonaro, seu filho Carlos Bolsonaro (vereador no Rio de Janeiro pelo PL) e o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), que chefiou a Abin durante o governo. Além deles, também foram indiciados o atual diretor-geral da agência, Luiz Fernando Corrêa, e o número dois do órgão, Alessandro Moretti.

De acordo com a PF, houve um “conluio” entre a atual e a antiga gestão da Abin para encobrir a existência de monitoramentos ilegais realizados pela chamada “Abin paralela”. Corrêa, nomeado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), é considerado próximo ao Partido dos Trabalhadores e já comandou a PF entre 2007 e 2011, durante o segundo mandato de Lula.

A investigação revelou a existência de um núcleo paralelo dentro da Abin, estruturado para produzir ações de inteligência com fins político-partidários. Entre os alvos das espionagens estariam ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Luís Roberto Barroso e Luiz Fux; o ex-governador de São Paulo João Doria; e os ex-presidentes da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Maia (União Brasil-RJ).

Parte dessas atividades estaria vinculada ao chamado “gabinete do ódio”, grupo coordenado por Carlos Bolsonaro e responsável pela produção e disseminação de fake news e ataques a opositores nas redes sociais. O grupo já havia sido revelado por reportagens do jornal O Estado de S. Paulo em 2019.

O caso veio à tona com a deflagração da Operação Última Milha, em outubro de 2023. A ação investigou o uso do software israelense “First Mile”, utilizado para rastreamento de celulares. A PF identificou que, entre 2019 e 2023, a Abin acessou o programa cerca de 60 mil vezes, com picos durante o ano eleitoral de 2020.

Em janeiro de 2024, os desdobramentos levaram a buscas nos endereços de Ramagem, durante a Operação Vigilância Aproximada.

Bolsonaro e Ramagem já são réus no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), a Abin teria sido usada para produzir relatórios falsos contra o sistema eleitoral, como parte de um plano de deslegitimação das urnas eletrônicas.