Um caseiro de 60 anos foi atacado e morto por uma onça-pintada na madrugada desta segunda-feira (21) na região conhecida como Touro Morto, localizada no encontro dos rios Miranda e Aquidauana, no Pantanal sul-mato-grossense. Jorge Avalo, conhecido como “Jorginho”, trabalhava como caseiro em um pesqueiro particular às margens do Rio Aquidauana.
As primeiras informações sobre o incidente foram divulgadas pelo biólogo Henrique Abrahão Charles, especialista em fauna silvestre, em sua página no Instagram (@biologohenrique), onde frequentemente compartilha conteúdo educativo sobre animais selvagens, incluindo onças no Pantanal.
Segundo informações preliminares, o ataque ocorreu por volta das 5h30, quando a vítima preparava café em sua residência. Testemunhas relatam que o homem teria se assustado com a presença do animal e tentado fugir em direção ao rio, mas foi alcançado pela onça no deck que dá acesso às águas.
Buscas e investigação
A Polícia Militar Ambiental (PMA) foi acionada na manhã de segunda-feira e deslocou equipes para o local, incluindo um helicóptero do Grupamento Aéreo, devido à dificuldade de acesso à região. As buscas contam com o apoio de embarcações, drones e voluntários, incluindo fazendeiros da área.
O corpo do caseiro Jorge Ávalo, de 60 anos, foi encontrado na manhã desta terça-feira (22). Quem afirma ter localizado os restos mortais do homem é o cunhado dele, identificado como Magrão, junto com uma equipe da Polícia Militar Ambiental.
A informação foi compartilhada pelo próprio familiar. “Aqui é o Magrão, cunhado do Jorge que a onça comeu. Achei o Jorge, viu. Não falei pra vocês que eu ia achar meu cunhado? Deus me guiou certinho onde ele ia estar, fui em cima. Eu e minha equipe”, diz o pantaneiro.
Na busca pelo corpo, Magrão contou com o apoio de um sargento da PMA e de um irmão. “Cheguei aqui 6 horas da manhã, já caí no mato e falei ‘só tem um lugar pra onça ter levado ele’. Achamos ele. Ele não, uma parte dele”, relata o cunhado.
Turistas que chegaram ao local para comprar mel encontraram vestígios do ataque, como manchas de sangue, vísceras e pegadas do felino. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram rastros na areia e marcas de sangue sobre uma passarela de madeira.
Familiares da vítima afirmam que a morte está confirmada, embora as autoridades ainda estejam investigando oficialmente o caso. A Polícia Civil também foi notificada para instaurar inquérito sobre o desaparecimento e a possível morte.
“Infelizmente a gente brincava… Ele sabia o perigo que estava correndo. A onça pegou mesmo meu cunhado. Está confirmado”, lamentou um familiar de Jorge em depoimento.
Histórico de presença de onças
Há uma semana, Jorge havia sido filmado pelo cunhado no mesmo local depois que uma onça apareceu e deixou rastros na areia ao redor de sua residência, o que indica que o animal já frequentava a área.
“Essa aí é uma das câmeras que fazem os registros do pesqueiro Touro Morto lá no rio Miranda”, comentou um morador local em vídeo compartilhado nas redes sociais, mostrando imagens de uma onça capturada por câmeras de monitoramento dias antes do ataque.
A região do Touro Morto é conhecida pela alta concentração de onças-pintadas, que frequentemente se aproximam de pesqueiros e residências. Especialistas apontam que a área também já foi alvo de investigações por “ceva” – prática ilegal de oferecer alimentos para atrair animais selvagens.
A onça-pintada no Pantanal
A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas, podendo chegar a 135 kg. É um animal robusto, com grande força muscular, sendo a potência de sua mordida considerada a maior dentre os felinos de todo o mundo. Suas presas naturais são animais silvestres como catetos, capivaras, jacarés, queixadas, veados e tatus.
O Pantanal brasileiro abriga uma das maiores densidades populacionais da onça-pintada, com um indivíduo a cada 12 quilômetros quadrados em algumas áreas. Por estar no topo da cadeia alimentar e necessitar de grandes áreas preservadas para sobreviver, a presença desse animal é considerada um indicador de qualidade ambiental.
“A ocorrência desses felinos em uma região indica que ela ainda oferece boas condições que permitem a sua sobrevivência”, explica o biólogo Fernando Tortato, pesquisador especializado em onças-pintadas no Pantanal.
As crescentes alterações ambientais provocadas pelo homem, assim como o desmatamento e a caça às presas silvestres e às próprias onças são as principais causas da diminuição da população desses felinos no Brasil. No Pantanal, as recentes queimadas e o avanço da agropecuária têm reduzido o habitat natural das onças, aumentando o potencial de conflitos com humanos.
Ataques raros, mas possíveis
Especialistas em vida selvagem ressaltam que ataques de onças a humanos são raros, mas podem ocorrer em situações específicas, como escassez alimentar ou quando o animal se sente ameaçado.
“As onças geralmente evitam o contato com seres humanos. Ataques como esse são extremamente incomuns e geralmente ocorrem quando o animal está em situação de estresse, doente, ferido ou quando seu território natural está sendo invadido”, explica a bióloga Marina Schweizer, do Instituto Onçafari.
Dados do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP) indicam que menos de dez ataques fatais de onças a humanos foram registrados no Brasil nos últimos 20 anos, a maioria em circunstâncias onde houve algum tipo de provocação ao animal.
A PMA alerta moradores e trabalhadores da região para que redobrem os cuidados, evitando circular sozinhos em áreas de mata fechada e alagados, principalmente durante o início da manhã e fim da tarde, horários de maior atividade dos felinos.
Impacto na comunidade
O caso gerou comoção entre pescadores e moradores da região, que compartilharam vídeos e relatos do ocorrido em grupos de mensagens. A morte de Jorge levanta questões sobre a segurança de trabalhadores em áreas remotas do Pantanal e a convivência com a fauna selvagem.
“Precisamos de mais orientação sobre como agir quando encontramos esses animais. Muita gente trabalha em áreas isoladas e não sabe como se proteger”, comentou José Pereira, pescador que atua na mesma região.
Organizações ambientalistas como o WWF-Brasil e o Instituto Pró-Carnívoros desenvolvem programas de educação ambiental e convivência pacífica com predadores em regiões como o Pantanal, buscando reduzir conflitos entre humanos e animais selvagens.
Medidas de segurança
Especialistas recomendam algumas medidas para reduzir o risco de ataques de onças em áreas onde esses animais estão presentes:
• Evitar caminhar sozinho em trilhas e áreas isoladas, especialmente ao amanhecer e entardecer
• Manter o ambiente ao redor de residências limpo e livre de atrativos para animais silvestres
• Não alimentar animais selvagens ou deixar restos de alimentos expostos
• Utilizar iluminação adequada em áreas externas durante a noite
• Em caso de encontro com uma onça, não correr e tentar parecer maior (abrindo os braços, por exemplo)
• Fazer barulho ao caminhar em áreas de mata para alertar os animais sobre sua presença
As autoridades seguem investigando o caso e devem emitir um relatório oficial sobre as circunstâncias do ataque nos próximos dias. A Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul informou que vai intensificar o monitoramento de onças na região do Touro Morto e implementar novas medidas de segurança para trabalhadores e turistas que frequentam a área.
Fontes: Midiamax, Correio do Estado, O Impresso MT, RCN67, WWF-Brasil, Instituto Pró-Carnívoros e Instagram do biólogo Henrique Abrahão Charles (@biologohenrique).

